Aspectos Clínicos de Alguns Distúrbios da Beta-Oxidação dos Ácidos Graxos

     

Teste do Pezinho Expandido DLE


Neste grupo as doenças se manifestam pela incapacidade metabólica de oxidar ácidos graxos por ausência ou disfunção enzimática, e em outros casos por esgotamento secundário de carnitina.

  • Deficiência de carnitina palmitoil transferase tipo II (CPT II)


  • A CPT II afeta mais o sexo masculino que o feminino e é mais aparente nas pessoas com diabetes ou deficiência nutricional. O jejum pode desencadear os sintomas, cujos mais importantes são mialgia, fadiga e urina marrom-avermelhada.
    Normalmente torna-se aparente em adultos, mas uma forma mais severa afeta crianças.
    O tratamento inclui uma dieta restrita em proteínas e gorduras e rica em carboidratos, hidratação adequada, evitar jejum e manter a criança aquecida.
    A suplementação de carnitina pode ser eficaz.

  • Deficiência de múltiplas acil-CoA desidrogenase


  • A Deficiência de múltiplas acil-CoA desidrogenase também conhecida como Acidemia Glutárica Tipo II (GA II) manifesta-se sob três formas, sendo a forma neonatal bastante severa e freqüentemente fatal dentro de algumas semanas.
    Os sintomas de GA II neonatal em crianças com anomalias congênitas podem incluir hipoglicemia severa, acidose metabólica, hipotonia, hepatomegalia e freqüentemente um odor de "pés suados".
    Quando as anomalias congênitas estão ausentes, os sintomas podem ser mais leves e crianças não tratadas podem sobreviver durante um período mais longo.
    O tratamento inclui uma dieta rica em carboidratos, restrita de proteínas e gorduras, com refeições freqüentes. A suplementação com riboflavina e carnitina pode ser útil.

  • Deficiência de desidrogenase de 3-hidroxi-acil-CoA de cadeia longa (LCHAD)


  • Sintomas típicos de LCHAD são hipoglicemia, letargia, déficit ponderal e retardo de desenvolvimento, freqüentemente acompanhadas por hipotonia e cardiomiopatia. Alguns episódios de Síndrome de Morte Súbita do Lactente (SMSL) são possivelmente causados por LCHAD.
    O diagnóstico e tratamento precoces podem prevenir episódios de risco de vida. O jejum deve ser evitado e além disso, deve-se instituir uma dieta rica em carboidratos.

  • Deficiência de desidrogenase de acil-CoA de cadeia média (MCAD)


  • MCAD é caracterizada por episódios recorrentes de acidose metabólica, e por hipoglicemia, letargia e coma. Os sintomas tipicamente começam no lactente ou em crianças jovens.
    MCAD ocorre principalmente entre brancos descendentes do norte europeu.
    Os episódios iniciais são freqüentemente desencadeados por jejum e podem levar à morte em 20 a 25 por cento dos casos.
    Aproximadamente 25% das mortes atribuídas à Síndrome de Morte Súbita do Lactente (SMSL) são, provavelmente, resultantes de MCAD.
    Evitar o jejum é imperativo. A administração de glicose IV é necessária quando houver intolerância alimentar. Ingesta elevada de ácidos graxos de cadeia média e longa deve ser evitada. Suplementos de carnitina são recomendados para estas crianças.

  • Deficiência de desidrogenase de acil-CoA de cadeia curta (SCAD)


  • Os sintomas iniciais de SCAD são o déficit ponderal e a hipoglicemia. Ao longo prazo, há um retardo do desenvolvimento.
    Como os outros distúrbios da oxidação dos ácidos graxos, o jejum pode precipitar uma crise e deve ser evitado.
    A dieta deve ser controlada e suplementos de carnitina devem ser administrados.

Deficiências de enzimas do transporte e da beta-oxidação mitocondriais de ácidos graxos em humanos:
Os pacientes acometidos por estas doenças podem ficar sem diagnóstico em parte porque o aparecimento de manifestações clínicas muitas vezes só acontece após jejum prolongado, e em parte devido à dificuldade do diagnóstico, pois os exames laboratoriais de rotina não ajudam o clínico a suspeitar de um defeito de beta-oxidação dos ácidos graxos. A cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS) ou a espectrometria de massas em tandem (MS/ MS) são imprescindíveis no diagnóstico destas deficiências, especialmente em pacientes assintomáticos.


Deficiência de

Sigla inglesa Ano da 1ª Descrição Principais órgãos afetados Principais características
Fígado Músculo Coração
Carnitina-palmitoiltransferase II, forma muscular CPT II1 1973 não sim não Causa mais comum de rabdomiólise e mioglobinúria
Carnitina-palmitoiltransferase II, forma hepatocardiomuscular CPT II 2 1991 sim sim sim Hipoglicemia hipocetótica, cardiomiopatia neonatal, morte súbita
Carnitina-palmitoiltransferase I, hepática CPT I 1980 sim não não Hipoglicemia hipocetótica
Acil-CoA desidrogenase de cadeia média MCAD 1982 3 sim não não Mais freqüente transtorno da beta-oxidação dos ácidos graxos; descrição no texto
Acil-CoA desidrogenase de cadeia curta, muscular SCAD 1 1984 não sim não Adultos com miopatia crônica; deficiência de SCAD restrita aos músculos esqueléticos
Acil-CoA desidrogenase de cadeia curta SCAD 2 1987 sim sim não Início no período neonatal; fenótipo variável: acidose metabólica, atraso de desenvolvimento, convulsões, miopatia; hipoglicemia hipocetótica ausente
Acil-CoA desidrogenase de cadeia muito longa VLCAD 4 1992 sim sim sim Hipoglicemia hipocetótica, hipotonia, doença hepatocelular, cardiomiopatia hipertrófica, morte súbita
3-hidroxiacil-CoA desidrogenase de cadeia longa LCHAD 5 1988 sim sim sim Hipoglicemia hipocetótica; esteatose hepática; retinite pigmentosa; esteatose hepática ou síndrome HELLP 6 na mãe heterozigótica durante a gravidez
Proteína trifuncional mitocondrial MTP 7 1992 sim sim sim Cardiomiopatia neonatal dilatada; polineuropatia e miopatia crônica progressiva
3-hidroxiacil-CoA desidrogenase de cadeia curta SCHAD 1991 sim sim sim Entidade clínica e bioquimicamente ainda mal definida
Transportador de carnitina CT 1988 sim sim sim Níveis plasmáticos de carnitina muito baixos; cardiomiopatia dilatada; hipoglicemia hipocetótica; miopatia
Translocase carnitina/acilcarnitina CACT 8 1991 sim sim sim Hipoglicemia hipocetótica; hiperamonemia; arritmias cardíacas; cardiomiopatia hipertrófica


1 forma leve de início na idade adulta / 2 forma neonatal severa / 3 Os primeiros pacientes foram descritos por Gregersen et al. 1976 4 como dicarboxilicacidúria, somente em 1982, Kolvraa et al. 13 postularam que a deficiência de acil-CoA desidrogenase poderia ser responsável pela dicarboxilicacidúria. / 4 VLCAD é localizada na membrana mitocondrial interna, ao contrário da MCAD e SCAD que se encontram na matriz mitocondrial. / 5 LCHAD faz parte do heterocomplexo da proteína trifuncional, que além da atividade de LCHAD, possui as atividades de 3-cetoacil-CoA tiolase e de enoil-CoA hidratase. Nos pacientes com deficiência de LCHAD, a atividade de hidratase é normal e a de tiolase está moderadamente diminuída. Os perfis de acilcarnitinas das deficiências de LCHAD e de MTP são indistinguíveis. / 6 Síndrome HELLP (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelet count: hemólise, elevação de enzimas hepáticas e baixa contagem de plaquetas, em associação com pré-eclampsia). / 7 Deficiência das três atividades: 3-hidroxi-acil-CoA desidrogenase, 3-cetoacil-CoA tiolase e enoil-CoA hidratase / 8 O perfil de acilcarnitinas das deficiências de CACT e de CPT II são indistinguíveis.


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