- Hiperfenilalaninemias
A elevação dos níveis de fenilalanina na triagem neonatal (Phe > 4,0 mg%) requer o diagnóstico diferencial entre
as seguintes patologias:
- Fenilcetonúria clássica (PKU): deficiência grave da enzima fenilalanina-hidroxilase levando ao acúmulo de
fenilalanina no sangue com graves sequelas neurológicas caso o tratamento não seja instituído precocemente.
Os níveis de fenilalanina são muito elevados (> 10 mg%) e os de tirosina muito baixos.
- Hiperfenilalaninemia benigna: deficiência menos acentuada da enzima fenilalanina-hidroxilase com elevação
moderada dos níveis de fenilalanina (4,0 a 10mg%). Não há necessidade de tratamento dietoterápico.
- Deficiência da Tetrahidrobiopterina (BH4): a BH4 é um cofator para as enzimas fenilalanina-hidroxilase,
tirosina-hidroxilase e triptofano-hidroxilase. A deficiência deste cofator leva à deficiência na produção
de neurotransmissores (DOPA e serotonina) com conseqüente lesão neurológica grave independente do tratamento
dietoterápico. Os níveis de fenilalanina podem ser tão elevados quanto na fenilcetonúria clássica.
- Tirosinemia: ocorre elevação tanto da fenilalanina quanto da tirosina. A forma mais comum é a Tirosinemia
transitória do recém-nascido que está freqüentemente relacionada à introdução precoce de leite de vaca, sendo
também comum em prematuros e gemelares. Apesar de rara, deve-se incluir no diagnóstico diferencial a Tirosinemia
tipo I que é uma doença grave que se manifesta geralmente nas primeiras semanas de vida com um quadro
progressivo de insuficiência hepática, diátese hemorrágica, lesão renal (Síndrome de Fanconi), podendo levar
ao óbito os casos não tratados.
- Hiperfenilalaninemia secundária a lesão hepática de diversas causas. Ocorre elevação da fenilalanina e da
tirosina.
- A fenilalanina pode ser dosada pelos métodos convencionais (método enzimático) mas a utilização da
espectrometria de massas apresenta as seguintes vantagens:
- Diminuição de 50% nos índices de falso-positivos.
- Através da análise das concentrações da fenilalanina e da tirosina e da relação fenilalanina/tirosina é
possível fazer o diagnóstico diferencial entre as diversas causas de hiperfenilalaninemia. Apenas os pacientes
com fenilcetonúria clássica e deficiência de BH4 apresentam uma relação Phe/Tir aumentada.o que orienta a
indicação terapêutica. Os pacientes com Tirosinemia apresentam níveis muito elevados de tirosina e
moderadamente elevados de fenilalanina. O diagnóstico de Tirosinemia tipo I requer a dosagem da succinilacetona
em sangue ou urina.
- Diagnóstico destas patologias pode ser feito precocemente (antes de 24 horas de vida) considerando a grande
sensibilidade do método.
- Doença da urina de xarope de bordo (MSUD)
MSUD é causada por metabolismo anormal de três aminoácidos de cadeia ramificada. A incidência é de 1 em 200.000
nascidos vivos. Os sintomas incluem um odor de xarope de bordo na urina, recusa alimentar, letargia, coma e
retardo mental. A morte comumente ocorre nos três primeiros meses de vida. O tratamento requer restrição
dietética de aminoácidos de cadeia ramificada, necessitando de uma fórmula complexa e acompanhamento médico
rigoroso da criança.
- Hiperglicinemia não-cetótica (NKH)
É uma doença metabólica autossômica recessiva que se apresenta no período neonatal como um quadro neurológico
grave, quase sempre fatal. Os sobreviventes apresentam déficit neurológico grave, retardo psicomotor e
convulsões de difícil controle. A lesão metabólica da NKH deve-se à incapacidade do sistema de clivagem da
glicina (GCS), em proceder a descarboxilação oxidativa da glicina, levando a um acúmulo deste aminoácido
neurotransmissor, que resulta numa estimulação excessiva dos receptores N-metil-D-aspartato (NMDA) cerebrais.
O tratamento inclui redução da sobrecarga de glicina e o uso de antagonistas dos efeitos neurotransmissores da
glicina (antagonistas NMDA).
- Hipermetioninemia
Níveis sangüíneos elevados de metionina são encontrados na hipermetioninemia, na homocistinúria, e na
tirosinemia tipo I. Na hipermetioninemia não é observado o aumento de tirosina encontrada na tirosinemia
tipo I e nem o aumento de homocisteína observado na homocistinúria. A maior parte dos casos de
hipermetioninemia é devida a uma deficiência de metionina-adenosiltransferase (MAT) I/III causada por
mutações no gene MAT1A. Os efeitos clínicos e metabólicos destas mutações são muito variáveis. A maioria
dos indivíduos são heterozigotos para uma mutação dominante, apresentando níveis plasmáticos moderadamente
elevados de metionina e um quadro clínico benigno e assintomático. No entanto um pequeno grupo de indivíduos
são homozigotos para mutações recessivas, apresentando uma redução significativa da atividade da MAT, níveis
muito elevados de metionina plasmática e sintomas neurológicos, incluindo alterações da substância cinzenta e
desmielinização cerebral.
- Homocistinúria
A causa mais comum de homocistinúria é uma deficiência da enzima cistationina sintetase. A incidência é de
1em 200.000 nascidos vivos. Entre os sintomas se encontram tromboembolismo, deslocamento do cristalino
(que pode ocorrer mesmo com tratamento regular), escoliose, osteoporose, retardo mental, convulsões e distúrbios
psiquiátricos. Aproximadamente 50 por cento dos indivíduos não tratados morrem antes de 25 anos de idade. O
tratamento pode incluir uma dieta restrita de metionina, suplementada de cistina, assim como altas doses de
Vitamina B6.
- Tirosinemia
É uma doença metabólica que causa elevação dos níveis sangüíneos de tirosina, um aminoácido presente na maioria
das proteínas. A incidência é 1:100.000 nascidos vivos, com ambos os sexos igualmente afetados. Os sintomas
incluem déficit ponderal, vômitos, diarréia, e um odor como de repolho. Outros sintomas incluem fígado
aumentado, edema e risco de doença hemorrágica. Se não tratada, a tirosinemia é fatal dentro do primeiro ano
de vida. O tratamento inclui restrições dietéticas.
- Acidúria arginino-succínica
Esta doença é extremamente rara. Os sintomas são hiperamonemia acompanhada por falta de apetite, vômitos,
apatia, convulsões e coma. O início dos sintomas se dá normalmente no nascimento, mas podem não ser notados
durante dias ou semanas. Sem tratamento, ocorrerá lesão cerebral, coma e morte. O tratamento inclui uma dieta
de alto teor calórico, restrita em proteínas, suplementação de arginina e administração de benzoato de sódio e
fenilacetato de sódio. A diálise pode ser necessária.
- Argininemia
Duas formas de arginase, A-I e A-II, são especificadas por genes distintos, ARG1 E ARG2. A isoenzima A-I
contribui com 98% da atividade de arginase hepática e está ausente na argininemia. A doença se caracteriza por
graus variados de hiperamonemia, paraplegia espástica com início aos 2 - 3 anos de idade, convulsões epilépticas
e retardo mental de início mais tardio. Os níveis de arginina estão elevados no sangue e no líquido
cefalorraquiano dos pacientes e intermediários nos heterozigotos. A atividade de arginase é muito baixa nos
eritrócitos dos pacientes e intermediária nos heterozigotos. Pode haver um efeito colateral com o tratamento
com valproato de sódio, um anticonvulsivante. A doença pode permanecer sem diagnóstico em casos de paralisia
cerebral, devido aos seus sintomas relativamente mais leves do que nos outros distúrbios do ciclo da uréia, nos
quais a hiperamonemia é muito mais severa. O tratamento é feito pela administração de benzoato e restrição de
arginina.
- Citrulinemia
A citrulinemia origina-se de uma deficiência de arginino-succinato sintetase. A epidemiologia, os sintomas, e o
tratamento são os mesmos da acidúria arginino-succínica.
- Síndrome de hiperornitinemia-hiperamonemia-homocitrulinúria
Os sintomas clínicos estão relacionados à hiperamonemia e se assemelham àqueles dos outros distúrbios do ciclo
da uréia. A fisiopatologia da doença envolve uma diminuição do transporte de ornitina para as mitocôndrias,
resultando num acúmulo de ornitina citoplasmática e numa redução da capacidade de processar sobrecargas de
amônia. A ornitina-delta-aminotransferase, está normal. Não ocorrem problemas visuais ou alterações do fundo
de olho como na ornitinemia com atrofia circular corio-retínica. Numa dieta restrita de proteína as
concentrações plasmáticas de ornitina são geralmente mais baixas que na atrofia circular. Postula-se que a
homocitrulina origine-se da transcarbamoilação da lisina. A herança é autossômica recessiva.
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