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DEFINIÇÃO
Os distúrbios da oxidação dos ácidos
graxos (DOAG) são deficiências genéticas
metabólicas nas quais o organismo é incapaz
de oxidar os ácidos graxos para produzir energia, devido
à ausência ou mau funcionamento de uma enzima
específica. A principal fonte de energia para o organismo
é a glicose. Normalmente quando a glicose se esgota,
a gordura é oxidada para produzir energia. Entretanto,
esta energia não está prontamente disponível
para as crianças e adultos com "DOAG". Se
não diagnosticados e não tratados, estes distúrbios
podem causar sérias complicações afetando
o sistema nervoso central, o fígado, o coração,
os músculos esqueléticos, e a retina.
O distúrbio mais comum é a Deficiência
de Acil-CoA Desidrogenase de Cadeia Média (siglas inglesas
MCAD para a enzima e MCADD para a deficiência).
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Pacientes com deficiência de MCAD são normais
ao nascimento e geralmente apresentam sintomas clínicos
entre 3 e 24 meses de vida, em resposta tanto ao jejum prolongado
(por exemplo, o desmame da mamada noturna) quanto a infecções
comuns intercorrentes (por exemplo, viroses gastrointestinais
ou infecções de vias aéreas superiores),
que tipicamente causam perda de apetite e aumentam o consumo
de energia, devido à febre. Apresentação
tardia na fase adulta também é possível.
Tais estresses metabólicos levam ao vômito e
à letargia, que pode evoluir progressivamente ao coma
e à morte. Os episódios podem iniciar ou serem
acompanhados de convulsões.
Hepatomegalia e doença hepática aguda estão
quase sempre presentes durante uma descompensação
aguda, que também é caracterizada por hipoglicemia
hipocetótica (não necessariamente não-cetótica),
aumento do "anion gap", hiperuricemia, elevação
das transaminases hepáticas, e discreta hiperamonemia.
Este quadro clínico pode levar em alguns casos ao diagnóstico
de Síndrome de Reye, que é caracterizada por
encefalopatia aguda não inflamatória com hiperamonemia,
disfunção hepática e infiltração
gordurosa do fígado.
Morte súbita é a primeira manifestação
da deficiência de MCAD em 18% dos pacientes. Uma deterioração
clínica rápida, desproporcional para uma simples
e benigna infecção, pode levar à suspeita
da deficiência de MCAD ou outra desordem da b- oxidação
dos ácidos graxos e requer imediata administração
de glicose intravenosa e coleta de amostras de sangue e urina
para testes metabólicos.
Os pacientes correm o risco de perder fases significativas
do seu desenvolvimento e adquirir afasia e desordens com déficit
de atenção que, se imagina, sejam secundárias
à lesão cerebral ocorrida durante o evento metabólico
agudo. Fraqueza muscular crônica é observada
em 18% dos pacientes que passaram por múltiplos episódios
de descompensação metabólica.
Embora o prognóstico seja excelente, uma vez estabelecido
o diagnóstico, a morte súbita durante a primeira
descompensação metabólica é comum,
podendo ocorrer tardiamente na fase adulta (como, por exemplo,
durante o estresse metabólico causado por uma cirurgia).
Achados clínicos em pacientes que não sobreviveram
incluíram infiltração gordurosa do fígado,
rins e coração, assim como edema cerebral.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
O diagnóstico da MCADD requer uma interpretação
em conjunto de múltiplas análises, que levam
em consideração o status clínico do paciente
(com sintomas agudos ou assintomático) na hora da coleta
da amostra. A avaliação laboratorial inicial
deverá incluir as seguintes análises e sua correta
interpretação: Perfil de Acilcarnitinas Quantitativo
em sangue em papel-filtro ou plasma, ácidos graxos
livres plasmáticos, ácidos orgânicos urinários
e acilglicinas urinárias. O diagnóstico bioquímico
da deficiência de MCAD pode ser confirmado pela medida
da atividade enzimática dos fibroblastos ou outros
tecidos e por teste genético molecular do gene ACADM
(lócus cromossômico 1p31), ambos podendo ser
utilizados para diagnóstico pré-natal. Aproximadamente
80% dos pacientes são homozigotos para a mutação
comum, K304E (G985A), e aproximadamente 18% são heterozigotos
para a mutação comum e um dos 23 alelos raros.
O teste genético molecular para o alelo comum K304E
(G985A) está disponível em laboratórios
clínicos de referência; testes para alelos raros
estão disponíveis somente em laboratórios
de pesquisa.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Outras desidrogenases homólogas à MCAD são:
a isovaleril-CoA desidrogenase (IVD) e a 2-metil-acil-CoA
de cadeia ramificada-desidrogenase (2MBCD). Recentemente,
outro gene (ACAD-8) foi descrito, apresentando 34% de homologia
com o gene ACADM. A função deste gene ainda
não foi estabelecida. Com exceção do
gene ACAD-8 e do gene LCAD, defeitos têm sido relatados
para todos os membros da família de genes ACAD. Deficiência
de SCAD é uma desordem altamente heterogênea,
com manifestações fenotípicas possivelmente
moduladas por dois polimorfismos que são encontrados
em 14% da população geral. Embora a apresentação
da deficiência de VLCAD possa ser similar à deficiência
de MCAD, a maioria dos pacientes com VLCAD apresenta miocardiopatia
como manifestação predominante. A falta de um
caso verdadeiro de deficiência de LCAD é surpreendente,
porque um modelo animal obtido por manipulação
genética, se manifesta com intolerância ao jejum
e um fenótipo bioquímico muito similar à
deficiência humana de VLCAD.
O diagnóstico diferencial da deficiência de MCAD
inclui todos os casos de síndrome de Reye ou similares,
em particular outros distúrbios da beta oxidação
dos ácidos graxos. Características diferenciais
dos distúrbios da beta oxidação dos ácidos
graxos de cadeia muito longa (VLCAD) incluem cardiomiopatia
e rabdomiólise, que não são tipicamente
observadas na deficiência de MCAD. Defeitos da cetogênese,
distúrbios do ciclo da uréia, acidúrias
orgânicas, defeitos da cadeia respiratória e
erros inatos do metabolismo dos carboidratos (por exemplo,
intolerância hereditária à frutose) também
podem apresentar-se como um quadro semelhante à síndrome
de Reye. Bioquimicamente os mesmos marcadores diagnósticos
vistos na deficiência de MCAD também estão
elevados na acidemia glutárica tipo 2, mas a presença
de vários ácidos orgânicos adicionais
(ácido glutárico, ácido 2-hidroxiglutárico,
ácido etilmalônico), e ésteres de carnitina
e glicina C4 e C5, e a excreção normal de fenilpropionilglicina
são elementos importantes para o diagnóstico
diferencial. O grande número de distúrbios a
serem considerados em crianças que apresentam disfunção
aguda do fígado e transtornos da consciência
realça a necessidade de se ampliar a escolha dos testes
diagnósticos laboratoriais e incluir pelo menos dois
dos métodos de rastreamento acima mencionados (por
exemplo, Perfil de Acilcarnitinas Quantitativo e ácidos
orgânicos urinários,), para serem realizados
em amostras colhidas em descompensação metabólica
aguda.
ACONSELHAMENTO GENÉTICO
Aconselhamento genético é o processo de
fornecer informações aos indivíduos ou
famílias sobre a natureza, os mecanismos de herança
e as implicações das desordens genéticas
para auxiliá-los nas decisões médicas
e pessoais. A seção seguinte é sobre
a avaliação de risco genético e o uso
da história familiar e de testes genéticos para
esclarecer o status genético dos membros de uma família.
MECANISMO DE HERANÇA
A deficiência de MCAD é uma desordem de caráter
autossômico recessivo.
RISCO PARA OS FAMILIARES
Os pais de uma criança afetada com deficiência
de MCAD são obrigatoriamente heterozigotos e, portanto,
ambos são portadores de mutação no gene
ACADM. Portadores são assintomáticos. Análises
bioquímicas e de mutação baseada no DNA
poderão ser oferecidas aos pais.
Filhos de indivíduos afetados pela deficiência
de MCAD serão pelo menos portadores heterozigotos.
Devido à alta freqüência de portadores para
a mutação K304E em caucasóides de origem
norte-européia, o rastreamento para portadores pode
ser oferecido aos cônjuges dos pacientes com deficiência
de MCAD, pertencentes a este grupo étnico.
Os irmãos de uma criança afetada têm 25%
de probabilidade de serem afetados, 50% de serem portadores
e 25% de não serem afetados e nem portadores. Devido
ao fato de não existir uma correlação
clara fenótipo / genótipo na deficiência
de MCAD, e de os pacientes poderem permanecer assintomáticos
até a idade adulta, todos os irmãos aparentemente
não afetados deverão ser testados para deficiência
de MCAD. Irmãos não afetados de indivíduos
com deficiência de MCAD têm uma probabilidade
de 2/3 de serem portadores.
Uma vez que a mutação que causa a doença
seja identificada no paciente, testes para portadores poderão
ser oferecidos a todos os membros da família da criança
afetada.
PREVALÊNCIA
Deficiência de MCAD é uma doença prevalente
em caucasóides especialmente de descendência
norte-européia, com uma freqüência de portadores
da mutação K304E (G985A) do gene ACADM entre
1 :40 e 1: 100. A alta incidência de uma única
mutação pontual é sugestiva de um provável
efeito fundador. A freqüência total da doença
tem sido estimada de 1:6.500 a 1:17.000, a variabilidade estando
relacionada à composição étnica
da população estudada.
Estudos realizados nos Estados Unidos mostraram que esta doença
é muito menos comum na população hispânica,
e somente alguns raros pacientes afro-americanos e nativos
americanos foram relatados. Até onde vai nosso conhecimento,
nenhum caso confirmado por análise molecular foi identificado
na população asiática.
TRATAMENTO
O tratamento da deficiência de MCAD é simples
e permite um bom prognóstico, especialmente quando
iniciado antes de se estabelecer uma crise metabólica.
Entretanto, se o diagnóstico não for conhecido,
pelo menos 18% dos pacientes morrem durante a sua primeira
crise metabólica.
Embora uma dieta relativamente pobre em gorduras (por exemplo,
menos de 30% da energia total na forma de gordura) possa ser
benéfica, o mais importante no tratamento da deficiência
de MCAD é evitar o jejum por mais de 12 horas. Lactentes
requerem alimentação freqüente. É
recomendável que os lactentes recebam 2g/kg de amido
de milho não cozido como fonte de carboidratos complexos
na hora de dormir para garantir suficiente suplemento de glicose
durante a noite.
Todos os pacientes devem possuir um laudo médico atualizado
para situações de emergência a ser fornecido,
em caso de necessidade, ao profissional de saúde dando
atendimento à criança, que poderá não
estar familiarizado com a deficiência de MCAD. Este
laudo deverá incluir uma explicação detalhada
da conduta na descompensação metabólica
aguda, enfatizando a importância das medidas preventivas
(por exemplo, glicose endovenosa apesar de resultados laboratoriais
normais, manter a criança em observação
no hospital durante a noite) e o número do telefone
do médico especialista.
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